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     São Paulo -
Jornal Dance - Stephane Massaro

Entrevista : Stephane Massaro

Junho/1997

"Brasileiro tem tudo para ser campeão mundial no Ballroom Dance".


Por Milton Saldanha

No Brasil desde setembro de 96, já falando um português fluente e bastante conhecido no meio da dança de salão de São Paulo e Rio, onde ministra aulas nas unidades do Centro de Dança Jaime Arôxa, o francês Stephane Massaro apaixonou-se pela maneira como os brasileiros dançam e se relacionam socialmente. Dedicado ao trabalho de trazer o ballroom para o Brasil (dança de salão de competição internacional), não gostou nem um pouquinho das críticas feitas pela mestra Maria Antonieta, do Rio, a esse estilo de dança. Maria Antonieta foi matéria de capa da edição anterior deste jornal, onde criticou duramente o ballroom dance, comparando-o com "soldado nazista marchando". Nesta entrevista, entre outras apreciações, Stephane responde a Maria Antonieta.

Hoje com 23 anos, Stephane começou a dançar aos dez anos, com seu pai, Andrei Massaro, professor renomado na Europa, dono de uma das maiores academias francesas. Começou só com rock, twist, fox. Nada, então, a ver com a chamada dança esportiva, ou ballroom. O curioso é que ele, hoje apaixonado por dança, resistiu no início. Achava que isso "era coisa para mulheres". A barreira foi vencida, ainda aos dez anos, ao fazer uma espécie de show, com coreografias. Stephane notou que as pessoas olhavam e gostavam. Foi o estímulo fundamental. Seu pai passou a dedicar-se à dança de competição, o ballroom, mesclando esse estilo com outros, mais despojados. Começou também a competir, aí já com 13 anos de idade. O ballroom tem categorias por idades, dos seis anos à terceira idade, e também por nível, de iniciante a avançado. No começo não ganhou prêmios, mas gradualmente acabou alcançando as finais dos campeonatos. Em 1992 ganhou o Campeonato Francês de Dança, na categoria adulto nivel-II (que precede o nivel internacional). Mas a troca de parceiras, três vezes, atrapalhou a continuidade do seu trabalho em competição. "Você ficava três anos treinando, perdia a parceira e junto todo esse esforço. Tinha que começar tudo de novo", conta. Preferiu parar com o ballroom mas continuou trabalhando com dança, como assistente do pai.

Dance - Você veio para ficar? Qual é o seu projeto?

- Tenho que voltar para a França, por causa do visto, mas quero retornar ao Brasil. Gosto do país e desejo ficar aqui.

Dance - Já arranjou uma namorada brasileira?

- Sim.

Dance - Este é o primeiro passo para ficar.

Dance - Como está o movimento da dança de salão na Europa?

Stephane - Os bailes europeus são mais baseados no rock, no fox, nesse tipo de ritmo. Eles gostam de tango e o samba que conhecem ainda é o da Carmem Miranda. Mas até o tango é dificil, porque sabem pouco. A principal diferença com o baile daqui é que lá as pessoas são mais fechadas, dá a impressão que temem dançar com emoção. Uma questão cultural. Refiro-me mais aos franceses. Os italianos e os espanhois já são mais abertos. Veja que é muito dificil um francês chegar perto de você e começar a falar, entrar numa discussão, tentar conhecer você. Isso se reflete no comportamento em dança.

Dance - Então quando você conheceu nosso sistema teve uma supresa muito grande...

Stephane - Meu primeiro contato com a dança brasileira foi na França mesmo, com o Jaime Arôxa. Fiquei maravilhado.

Dance - O que mais chamou sua atenção no estilo brasileiro de dançar?

Stephane - A relação entre os parceiros, essa coisa de olhar, de se envolver, de sentir. Fiquei impressionado com a importância que se dá à dama, ao casal, à melodia da música porque na França a gente pega mais o ritmo do que a melodia, quando aqui é o contrário. Isso me emocionou muito.

Dance - Maria Antonieta fez uma crítica muito contundente ao ballroom. Como você interpreta isso?

Stephane - Achei um pouco forte e isso me deixou pertubado. Para uma pessoa que tem tanto tempo de dança e tanto reconhecimento aqui no Brasil, mostrou-se fechada. Afirma "a dança é assim..." e não quer saber de nada.

Dance - Afinal, o que é o ballroom dance?

Stephane - É uma reunião de várias direções, como a dança esportiva, de formação, patinação, enfim várias categorias. O ballroom é uma coisa geral, de dança de casal. Dentro do ballroom existem as mais diversas categorias. Há pessoas que praticam só por divertimento, outras vão para competir, acha-se quem queira só entrar em bailes, outros optam por shows. O ballroom tem vários ritmos, divididos em categorias, como latino (samba, cha-cha-cha, rumba, passo doble, jive, um tipo de rock); standard ou moderno (valsa inglesa lenta, slow fox, valsa vienense, tango e quick).

Dance - Há uma maneira abismal entre a forma como o latino dança e o ballroom, segundo você mesmo comentou antes. Então, existe procedência na crítica da Maria Antonieta quando ela afirma que é muito rígido para os nossos padrões culturais?

Stephane - Acho que ela viu uma forma de dança que era a de competição. Esta é mais para show. No bailes da Europa ninguém dança daquela forma.

Dance - Até onde entendemos, Maria Antonieta se refere a um estilo muito rígido, a uma postura corporal muito dura. Como ela mesma disse, quer uma coisa mais "esfuziante", menos enquadrada.

Stephane - Por que um brasileiro, se quiser, não pode entrar nesse tipo de dança? Se ele quer, ele pode. Ninguém é obrigado a fazer. É apenas mais um caminho. Na Europa tem muita gente que gosta e muitos que não gostam, também. A natureza do homem é competitiva. Temos que deixar que as pessoas se expressem. E digo mais: há muito mais possibilidades para o dançarino brasileiro, que expressa muita emoção, tem ginga. As pessoas gostam da competição. Quando o sujeito faz um passo diferente num baile, na verdade ele está dizendo para os outros "olhem o que eu sei fazer".

Dance - Numa recente entrevista ao Dance a jornalista Helena Katz, que mais do que uma crítica de dança é uma pesquisadora em nível de doutorado na área, criticou os concursos e festivais, porque dança envolve subjetividades que não podem ser julgadas, comparadas.

Stephane - Tudo bem, até pode ser, mas agora caia na real: eles existem. E uma vez que existem, e que movem meio mundo, você pode escolher - ficar de fora ou de dentro. Já que existem e podemos ganhar, então vamos batalhar para ganhar.

Dance - Em competição, especificamente no ballroom, já que não temos concursos no Brasil, que critérios e regras são levados em conta?

Stephane - É como na patinação, com um aspecto artístico, a forma de se expressar, e o lado técnico, que é a forma de fazer o movimento corretamente. É um conjunto, então os jurados se dividem entre os que avaliam cada aspecto.

Dance - Poderia dar um exemplo?

Stephane - Não se pode erguer a parceira por mais de um segundo e pouco e não acima de dez centímetros do chão. Em categorias infantís não permitem maquiagem nem roupas abertas, com fendas, coisas assim.

Dance - Esses critérios são universais ou cada país tem suas próprias regras?

Stephane - São para todos os países. Veja que o ballroom não existe só na Europa. Existe também na América do Norte, na Austrália, no Japão e outros países. Só não tenho certeza quanto a países da América Latina. Na África são poucos.

Dance - Essas regras não inibem a criatividade? Não engessam o dançarino?

Stephane - Só se pode julgar duas coisas imediatamente iguais, para que a diferença determine quem vence. É por isso que não pode existir concurso no Brasil, porque ele será sempre subjetivo, pela falta de regras. E se elas atrapalham os dançarinos mais criativos, por outro lado fornecem um referencial mais verdadeiro do que é ser o melhor naquilo que está estipulado e não pelo que sou capaz de fazer. Como não existem regras no Brasil -- cada um faz o que acha que seja melhor -- a gente quer aproveitar as competições internacionais que já existem, organizadas, estruturadas. É a única forma do brasileiro ser respeitado no meio da dança de salão.

Dance - Valeria a pena ter um concurso nacional?

Stephane - Acho que não, por enquanto. Na Itália fizeram, com a mazurca, mas ficou uma coisa muito local, confinada.

Dance - Fora do circuito acadêmico, e como estrangeiro, como você vê a dança popular dos salões no Brasil?

Stephane - Aqui não existem inibições. As pessoas dançam, se divertem. Lá fora há muitos bloqueios. Por exemplo, se o sujeito é direitor de uma empresa ele acha que não pega bem dançar. São coisas assim. Claro que não é todo mundo, falamos do predominante. Não se pode generalizar. O francês de Paris é diferente do francês do sul, por exemplo.

Dance - Quando você volta, sabendo dançar também do nosso modo, como é dançar na França?

Stephane - Muito bom. O pessoal gosta. O meu irmão, Sebastien, esteve por aqui e aprendeu várias coisas. Quando voltou usou num concurso, incluindo até samba no pé. O público adorou, mas os jurados desclassificaram ele.

Dance - Ganhou o público, mas não o júri...

Stephane - Exatamente. Enfrentei o júri, formado por franceses, alemães, italianos. Questionei a desclassificação, porque ele foi o melhor. Então esta é uma das razões pelas quais queremos fazer uma federação aqui no Brasil. Falei ao Jaime (Arôxa), "vamos enfrentá-los, vamos influenciar também nas regras". O brasileiro pode ser campeão mundial, tem tudo para isso, e quando chegar lá passa a ter autoridade para mudar muita coisa.

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Repercussão

Jaime Arôxa

A rigidez do ballrom dance a que Maria Antonieta se referiu é uma rigidez técnica e não expressiva. É justamente porque lá fora eles não têm expressão é que surgem críticas. Se a gente tiver aquela técnica, com a expressão que se tem aqui no Brasil, com o que a gente chama de ginga, com a liberdade da expressão do rosto, etc, vai ficar muito dificil para eles competirem com a gente. Já ouvi isso de professores europeus em todos os lugares onde estive e dancei. A grande contribuição do Brasil na área do ballroom dance seria justamente modificar todos os padrões que existem, no sentido de colocar o aspecto que mais falta a eles, que é a naturalidade, malícia e ginga. A contribuição brasileira para o ballroom dance é muito maior do que se imagina. Não queremos isso apenas para aprender e disputar com eles. O objetivo é dar nossa contribuição à dança mundial, com algo que ninguém tem no mundo. Maria Antonieta comete o mesmo erro que todo mundo comete: achar que vai se dançar dança de competição no Avenida ou no Moinho Santo Antonio. Não vai. É outra coisa, outro departamento. Então, quando ela diz que não vai pegar no Brasil, significa que nunca vai pegar nos bailes e isso é verdade. Pois é de outro ambiente. Veja que o ballroom tem dez casais numa quadra e é pequeno para eles. E ninguém vai querer aprender aquilo para ensinar aos alunos. Outro aspecto importante é que muita gente só conhece o ballroom por vídeo, e o vídeo é muito frio, não passa a verdadeira emoção. Assisti diversos festivais de dança na Europa. São lindos.


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14/09/2010 -
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