Efeito Clone (II) - Jornal Dance
Efeito Clone (II)
Marco Antonio Perna
Quando começou a novela O Clone eu e muitos do meio da dança de salão, no Rio, pensamos que iria aumentar o interesse da população, já que a modalidade está em baixa atualmente. Infelizmente, como a Stella Aguiar verificou em São Paulo, aqui no Rio de Janeiro o tiro saiu pela culatra.
Acredito que não tenha sido por falta de boa vontade da Glória Perez que sempre se esforça para colocar algo de dança de salão em sua novelas.
Ocorre que quem frequenta a Estudantina na novela é o núcleo pobre, como aliás não deixa de ter alguma veracidade, mas a dança de salão não é um retrato dessa
Estudantina, e nem da real, e precisa que a classe média frequente também para que haja algum crescimento em função de renda de bailes e academias. É claro que com o aumento da renda os frequentadores ganham porque os bailes e a frequência melhoram. A classe média e rica tende a ficar mais preconceituosa ainda com a dança de salão quando vê que só a classe humilde dança na Estudantina (na novela) e até os humildes podem achar que é "coisa de pobre" e se afastar, já que as pessoas mais humildes gostam de luxo, como diria o campeoníssimo carnavalesco carioca Joãozinho Trinta.
A frequência da Estudantina na novela também está um pouco fora da realidade, não são mostrados os turistas, e embora o Dr. Albieri e Edna tenham ido dançar, esse fato não chega a resolver o problema da falta de pessoas da classe média no núcleo de dança de salão da novela, já que na Estudantina real muitos dos frequentadores são da classe média.
De qualquer forma todo dançarino, fazendo uma analogia com O Clone, tem a obrigação de conhecer a Estudantina indo pelo menos uma vez, da mesma forma como todo muçulmano deve fazer pelo menos uma vez na vida a peregrinação à Meca.
Só quem saiu ganhando com essa novela foram os professores de dança do ventre que é mostrada com muito luxo nas cenas da elite da novela. A única forma da dança de salão conseguir ganhar alguma coisa é colocar dança do ventre em suas academias com a esperança das moças que forem aprender vejam a dança de salão como é realmente e queiram estrar, arrastando seus maridos ou namorados. Eu verifiquei após conversar com diversos profissionais do Rio que realmente não aumentou a procura por dança de salão em suas academias. Após uma dessas conversas onde estava acabando uma aula de dança do ventre, a própria professora, junto com algumas alunas, ao verem a aula seguinte de dança de salão disseram que era muito bacana e que gostariam de fazer aulas.
Enfim, a dança de salão está em baixa devido aos problemas de falta de dinheiro da população e a pulverização de academias e professores (inclusive sem preparo) pelas cidades sem que haja um interesse comum de unir os alunos em grandes bailes neutros. Fora a falta de interesse da mídia que não procura assuntos que não dêem retorno financeiro para os anunciantes. E, já que dança de salão não dá dinheiro ninguém apóia e acaba tornando-se um círculo vicioso, e quando apóia, como a Glória Perez, o tiro pode sair pela culatra. Só a organização em entidades ou associações pode realmente salvar o meio facilitando os bailes neutros e campeonatos onde os alunos possam ter seus interesses pela dança solidificados, além de impedir o surgimento de profissionais ruins.
Abril de 2002.
     
|