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Jornal Dance
Editorial

Modismo na dança: isso é bom, mas também perigoso

Milton Saldanha

Tudo indica que 1998 será um grande ano para a dança de salão, principalmente em São Paulo, onde o movimento vem crescendo a cada dia. Dois fatores, no mínimo, fundamentam essa perspectiva: as repercussões junto ao grande público que serão geradas pelas Olimpíadas de Sidney, na Austrália, ao incorporar o Ballroom Dance (dança de salão), e o já confirmado remake da novela Dancing Days, da Globo, com nova roupagem, adaptada aos nossos dias.
Como serão eventos de grande alcance, com impacto de massa, seus resultados só poderão ser positivos, agregando muito mais gente ao nosso meio, nos bailes e nas escolas de formação de dançarinos. Mesmo que alguém argumente que isso vai provocar um modismo -- e que todo modismo é efêmero -- isso será bom. Primeiro, porque permitirá que as academias e algumas casas de dança escapem dos riscos da descapitalização. Um boom na dança de salão encheria os cofres das escolas e com isso elas poderiam se estruturar melhor, inclusive criando reservas financeiras estratégicas, além de realizarem os investimentos mais fundamentais para suas operações e conseqüente sucesso. Segundo, porque o modismo traz muita gente nova que acaba ficando, ao descobrir a vida nova que se descortina aos praticantes da dança, por todo o prazer que ela representa e por todas as novas oportunidades que enseja, entre elas a de descobrir a pessoa amada.
Bastam estas duas razões para se festejar o modismo, se de fato acontecer. Mas o modismo envolve também alguns riscos, que exigem atenção e cautela. Por exemplo: o pior dos erros é não perceber que o modismo morre com a mesma velocidade de sua eclosão. Se é modismo, jamais vem para ficar. Acaba se dando mal quem faz investimentos pesados, em porte que não permite tempo para superar o chamado período de maturação, que é aquele em que o investimento ainda não se pagou, portanto ainda não é gerador de lucros. A onda dos bingos mostrou bem isso, sobretudo para quem entrou na fase de maior acirramento da concorrência e do início do fastio do público. Tornaram-se exemplares também as fases de proliferação das locadoras de vídeo e, mais recentemente, das peruinhas de cachorro quente. No primeiro caso teve gente que fechou as portas sem conseguir vender o ponto; no segundo quem não conseguisse sequer terminar de pagar o carro.
O diabo é que lições como essas acabam sendo esquecidas, ou sequer são notadas. O que queremos dizer é que apostar todas as fichas num eventual boom da dança de salão e sair por aí abrindo novas academias ou novos bailes é efetivamente uma temeridade. O amadorismo, por mais que tente, em qualquer campo (e aqui incluimos também o editorial), jamais poderá se igualar, ou sequer chegar perto, do profissionalismo. Que se deixe, então, o caminho livre para quem realmente tem pernas para trilhá-lo. As boas escolas, independente do porte, serão sempre as boas escolas. Estas sim ficarão. Como os grandes bailes, enquanto dignos desse nome.


Milton Saldanha


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