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     São Paulo -
Jornal Dance
Fevereiro, 1998. n.35


Rei Momo: Paulo Telles, 43 anos, 1,80 m de altura, 133 quilos.

Dance - Você é magro, médio ou gordo, para os padrões de um Rei Momo?

 

Paulo - Tenho o peso ideal.

 

Dance - Qual a origem dessa história, de que o Rei Momo tem que ser gordo?

 

Paulo - Isso começou com um ator negro, no Rio de Janeiro, o Carlos Benjamin de Oliveira. Certa vez, num Carnaval, ele resolveu se identificar como o Rei Momo, que até então era só uma caricatura, não existia em carne e osso. Ele se vestiu, com coroa, tudo.

 

Dance - O que é o Rei Momo?

 

Paulo - É o mensageiro da alegria. O Carnaval nasceu na Itália, em Veneza. O termo Carnaval é derivado de "carni vale", que era o adeus à carne, porque o período precedia a Semana Santa. Eles saiam nos grandes barcos, todos enfeitados. Não existia a figura do Rei Momo.

 

Dance - Então o Rei Momo é brasileiro?

 

Paulo - É brasileiro. Só que na caricatura, no papel, o personagem não era uma pessoa gorda. Mas como esse ator, o Carlos, era gordo, pegou a tradição de que o Rei Momo teria que ser uma pessoa obesa. E muitas pessoas acham que o Rei Momo teria que ser sempre uma pessoa negra, porque esse ator também era negro.

 

Dance - Em que ano foi isso?

 

Paulo - Em 1910, por aí. O início foi no Rio de Janeiro. Mas quem trouxe o Carnaval para o Brasil foi um português, o Pereira, que saia pelas ruas com seu bumbo, o famoso bumbo do Zé Pereira. As pessoas achavam divertido e iam se juntando a ele. É a origem inclusive da escola de samba. Como os negros na época não tinham grandes divertimentos, eles passaram a se juntar para isso. A primeira escola de samba nasceu exatamente perto de uma escola de verdade, um colégio. Daí essa coisa de nomes, como mestres. O Carnaval se alastrou pelo Brasil e cada região manteve suas próprias características, até hoje, porque o Carnaval de cada Estado é diferente dos outros.

 

Dance - Qual sua profissão?

 

Paulo - Sou funcionário público, do Estado. Mas acima de tudo sou Rei Momo. Isso é o que mais me interessa e orgulha.

 

Dance - Quantos reinados você já teve?

 

Paulo - Três. Este é o terceiro. O primeiro foi em 1995. Em 96 não pude concorrer por causa de uma cláusula do contrato que impossibilitava a reeleição. Concorri novamente em 97, aí mudaram esse contrato, e concorri novamente em 98.

 

Dance - Quantos disputaram a coroa?

 

Paulo - Sete. Isso mostra o quanto o Carnaval de São Paulo vem evoluindo nos últimos anos. A Corte do Carnaval, antigamente, era ocupada por pessoas que talvez não fossem, digamos, tão qualificadas. Hoje se valoriza muito a Corte. A postura é importante, a maneira como você interage com as pessoas. O item comunicação é também muito importante. Estamos representando a terceira maior cidade do mundo, então não poderíamos, em hipótese alguma, cometer alguns deslizes. Temos que ser impecáveis, para inclusive atender à expectativa das pessoas, que desejam que a Corte do Carnaval seja diferenciada. Temos que transmitir alegria, sem confundir as coisas.

 

Dance - Para concorrer basta ir lá e se inscrever?

 

Paulo - Não é bem assim, pois tem que preencher vários pré-requisitos. Além do concurso há diversos espetáculos, uma grande festa da eleição, com auditório superlotado, toda a mídia lá.

 

Dance - Como você começou?

 

Paulo - Eu sempre ia assistir os concursos de Rei Momo. Chegava em casa e falava para a minha mulher, a Zilda, "olha, ainda vou ser Rei Momo". Ela nunca levou isso a sério, nunca acreditou que eu estivesse falando prá valer. Até que aconteceu. Aí pintou o ciúme, o que é normal. Com o tempo ela foi entendendo que é uma coisa profissional, de responsabilide.

 

Dance - O Rei Momo dança de tudo?

 

Paulo - O Rei Momo samba! Sou de geração, dos anos 60, dos Beatles... A música estrangeira era muito forte aqui e recebi toda essa carga. Por volta dos 18 anos passei a gostar de samba, quando fui convidado a ajudar a montar a X-9 Paulistana, onde criei uma ala. Depois fiquei um período fora da escola. Então foi naquela fase que aprendi a gostar de samba. Era moda a gente sair do cursinho pré-vestibular e ir para o Camisa Verde e Branco.

 

Dance - O que aconteceu na X-9?

 

Dance - Eu era da diretoria. Entrou um novo presidente e não quis ninguém da diretoria anterior.

 

Dance - A política é muito forte nisso?

 

Paulo - Era muito forte, hoje está bem melhor. Era muito comum o sujeito dizer "a minha diretoria é a minha diretoria", coisas assim. E tem muita vaidade, um fala "sou o diretor de harmonia", outro "sou diretor de bateria"...

 

Dance - O presidente apita mesmo ou é um cargo mais honorífico?

 

Paulo - Ele manda mesmo, mas também delega bastante, porque é impossível tomar conta de tudo.

 

Dance - Quem é, realmente, o executivo da escola de samba?

 

Paulo - O diretor de Carnaval. E o carnavalesco, que monta o enredo, desenha as fantasias, e depois entrega tudo nas mãos do diretor de Carnaval, que vai elaborar as alas, a maneira como vai ser formada a escola. É um trabalho em conjunto, mas num dado momento o diretor de Carnaval é quem assume, tem toda a responsabilidade, responde pelo desfile. E, no caso de qualquer falha, ele é cobrado. Fora isso, todos os componentes têm as suas responsabilidades. Talvez o leigo não saiba o quanto é difícil colocar um Carnaval na avenida. São muitos os profissionais atrás disso.

 

Dance - E haja dinheiro.

 

Paulo - É verdade. As escolas fazem também muitos shows durante o ano para conseguir recursos. Elas estão se transformando em empresas. Importante também é que as empresas patrocinem o Carnaval, como a Kaiser, a Brahma, a Antárctica. Acho que os presidentes deveriam transformar todas as escolas em empresas, como está acontecendo no futebol. A Rosas de Ouro já é uma empresa, que dá emprego para muitas pessoas.

 

Dance - Como você vê aquelas brigas, que ocorrem todos os anos, na hora da divulgação dos resultados?

 

Paulo - Isso faz parte do jogo.

 

Dance - Se não colocarem um batalhão inteiro da PM fecha o pau...

 

Paulo - (Risos). É verdade, mas além de toda aquela paixão, da disputa, existe também o respeito, porque as escolas se tratam como co-irmãs. Lógico, todo mundo quer ganhar, ninguém quer o segundo lugar. É natural, humano. E se não tiver a competição não tem graça.

 

Dance - O Rei Momo não se mete?

 

Paulo - Não, a gente só trabalha pela cultura, com todos.

 

Dance - Na hora do desfile há vantagens ou desvantagens em ser a primeira ou a última escola na avenida?

 

Paulo - A primeira escola geralmente não pega o público "aquecido", empolgado. De repente nem todo mundo chegou. A última, com a luz do dia, tem a desvantagem sobre os efeitos especiais, que são feitos para a noite. Muitas escolas gostam mesmo é de desfilar entre 3:30 e 4 horas da manhã, porque o público está no auge, presente no sambódromo.

 

Dance - O público tem respondido bem, participado?

 

Paulo - O Carnaval é cativante. Quando a escola entra nasce uma troca de energia com o sambista. É gratificante para quem está na pista e também na arquibancada.

O interpréte (cantor) pesa muito nisso.

 

Dance - O Rei Momo é muito vaidoso?

 

Paulo - Ser Rei Momo para mim é super importante. E quando me caracterizo de Rei Momo a importância é maior. Nessa hora eu sou o rei. Eu sou o rei!

 

Dance - Cite uma qualidade de um bom Rei Momo?

 

Paulo - Ser simples, não ser prepotente, não ser arrogante.

 

Dance - Você come de tudo?

 

Paulo - Com certeza (Risos). Mas sou um gordo leve, tenho agilidade. Puxo bem o samba no pé.

 

Dance - Seus projetos?

 

Paulo - Ser o Rei Momo do ano 2000.

 

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Simone Sampaio dos Santos, 21 anos, 1,75 m de altura, 63 quilos.

 

Dance - Qual sua profissão?

 

Simone - Dançarina.

 

Dance - Tem namorado?

 

Simone - Tenho. Fiquei um tempo fora e estamos retomando. Estive oito meses na Itália, trabalhando com um grupo. Viajamos por todo o país e fizemos um show folclórico de samba/afro, com duas horas de duração. Estivemos na Suiça também.

 

Dance - Quem é o namorado?

 

Simone - Deixa prá lá...

 

Dance - Mas ele não fica enciumado?

 

Simone - Fica sim. A gente tem contato com muita gente, com muitos homens, tem que ser simpática, então de repente ele acha que posso estar sendo simpática demais... (Risos).

 

Dance - E cantadas, são freqüentes?

 

Simone - São sim. Mas já aprendi a lidar com isso. E desde que isso seja feito com classe, de forma respeitosa, não tem nada de mais. Toda mulher gosta de ser cantada.

 

Simone - Desde o momento em que você chega para fazer sua inscrição já passa a ser analisada a todo momento. Há pessoas que te orientam também.

 

Dance - Onde você aprendeu a dançar?

 

Simone - Em casa, danceterias, barzinhos. Aprendi muito sozinha, fiz todos os testes, passei, sou profissional registrada, como dançarina.

 

Dance - Este é o seu primeiro título?

 

Simone - É, e desejei muito isso.

 

Dance - Que caminho uma moça tem que trilhar para tentar esse título?

 

Simone - Primeiro, tem que gostar muito, principalmente do samba. Tem que saber dançar, ser comunicativa, ter uma postura legal. Idependente da realização de um sonho, que é você estar lá, existe a responsabilidade de representar São Paulo no Carnaval.

 

Dance - OK, mas no campo prático. Tem que estar numa escola de samba?

 

Simone - Isso importante, porque a escola patrocina, já que o custo acaba também sendo alto, para bancar fantasias, roupas, calçados, todas essas coisas.

 

Dance - O custo é de que ordem?

 

Simone - Mais de dois mil reais, mas foi a Nenê de Vila Matilde que bancou. Pode custar menos ou até mais.

 

Dance - E quem decide a fantasia?

 

Simone - É de comum acordo. Você idealiza alguma coisa, eles dão idéias, sugerem coisas para ficar mais bonito. Cada escola quer investir na sua candidata da melhor maneira possível.

 

Dance - A Corte está vinculada a que instituição?

 

Simone - Nosso contrato de trabalho é com o Anhembi, válido por um ano.

 

Dance - É remunerado?

 

Simone - O prêmio é dividido em treze vezes. Dá uma média de uns 13 mil reais. Antes pagavam tudo de uma vez, mas as pessoas acabavam recebendo propostas para ir para o exterior. Aí deixavam a Corte para ir para o Japão, Itália. O Anhembi resolveu dividir a premiação em 12 meses para evitar isso. No contrato diz que se deixar de se apresentar automaticamente fica suspenso o pagamento. Além da premiação recebemos também cachês em cada apresentação.

 

Dance - E aparecem outros trabalhos, por fora?

 

Simone - Sim, porque é uma porta que se abre para você, que está em evidência.

 

Dance - O que você mais gosta de dançar?

 

Simone - Meu lance realmente é samba, mas adoro axé music, gosto de afro, no que pretendo me especializar um pouco mais. É uma dança muito forte, expressiva.

 

Dance - Curte dança de salão?

 

Simone - Gosto, mas veja que danço muito sozinha.

 

Dance - Se um bom dançarino de salão puxar você na pista, você acompanha bem?

 

Simone - Acho que sim, principalmente se for o Carlinhos de Jesus, que é o meu ídolo. Tenho o maior sonho de fazer aulas com ele, porque é uma pessoa que viaja, pesquisa muito, gosta de trazer coisas novas.

 

Dance - E por que não faz aulas com o Carlinhos de Jesus?

 

Simone - Eu pretendo, se Deus quiser. Vai ser mais uma realização.

 

Dance - Como é sua vida pessoal?

 

Simone - Moro com minha mãe e uma tia e tenho dois irmãos, que moram com uma avó, desde pequenos. Nossa casa é na Vila Maria Alta, Zona Norte.

 

Dance - Antes de trabalhar com dança, o que você fazia?

 

Simone - Trabalhava na área de educação. Neste ano voi continuar o segundo colegial, que cancelei para viajar. Pretendo estudar Turismo, quero fazer linguas.

 

Dance - Como foi a reação em casa, ao ganhar o título?

 

Simone - Foi boa. Minha mãe só ficou preocupada quando fui para o exterior. Aí houve certa resistência. Mas eu tinha certa segurança, porque fui indicada para viajar pela mãe Cleusa, uma pessoa muito respeitada no mundo do samba. Ela é contratada pelo Anhembi e trabalha com a gente durante o período do Carnaval. Ajuda nas fantasias, no lado psicológico, é uma grande pessoa.

 

Dance - Como repercutiram os shows na Itália?

 

Simone - Muito bem. Lá estão na moda os shows de praça. Há muitos. As prefeituras das cidades contratam. Estiveram lá o Gil, a Daniela Mercuri e outros. Nosso grupo era bem exótico, com cinco bailarinas e um bailarino, todos negros. É um espetáculo bonito, com belos figurinos. E curti muito. A gente tirava fotos com as pessoas, dava autógrafos na rua, sentia-se artista.

 

Dance - Sem problemas de racismo?

 

Simone - Sinceramente, a gente nunca sentiu isso. O contato com o público foi sempre de uma forma carinhosa. Os policiais suiços de fronteira é que não foram simpáticos. Foram examinar as fantasias, foram grosseiros, até com meu nome implicaram, porque lá Simone é nome masculino. Mas parece que são assim com todos os turistas, não só com os negros.

 

Dance - Como está o Carnaval 98?

 

Simone - Cada ano que passa está melhor, com uma organização mais esmerada. Hoje não devemos nada ao Rio de Janeiro.

 

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A Corte do Carnaval Paulista

 

Rei Momo

Paulo Telles

43 anos

Eleito representando a X-9 Paulistana

Funcionário público estadual

 

Rainha

Simone Sampaio dos Santos

21 anos

Eleita representando a Nenê de Vila Matilde

Dançarina

 

Primeira Princesa

Ivi Margarete Mesquita

18 anos

Eleita representando a Vai Vai

Estudante

Segunda Princesa

 

Elisângela Maia Ericeira

26 anos

Eleita representando a Leandro de Itaquera

Dançarina

 

Mis Simpatia

Josicleide G. do Nascimento

23 anos

Eleita representando o Bloco Banda Grone's

Auxliar de tesouraria

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Chegou a hora da dança étnica

 

Durante uma semana o Hotel Fazena Dona Carolina, em Itatiba, interior de São Paulo, transformou-se num grande centro de danças, reunindo pessoas das mais variadas idades, inclusive do exterior e de vários Estados brasileiros. Foi o I Encontro Internacional de Músicas e Danças Étnicas, promoção da Universidade Anhembi-Morumbi, sob a organização e coordenação do bailarino e professor André Trindade, e de Glaucia Rodrigues e Iza Barbosa.

As danças de roda ocuparam parte destacada do evento. Elas proporcionam entre as pessoas integração e troca de muita energia positiva. Eles tiveram também momentos muito divertidos e relaxantes, como as danças dentro da piscina, todos os dias pela manhã, com banda e tudo tocando lá dentro, com água pela cintura.

O evento, ao contrário da maioria dos festivais, não teve qualquer tipo de competição. Todo o objetivo foi ensinar, curtir, integrar, com o máximo de descontração e alegria.

"Acreditamos que no cenário das transformações atuais a dança deva reconquistar sua função original -- explicaram os coordendores -- que é a manifestação da alma humana e o equilíbrio da terra. Assim como faziam os antigos, dançamos para manter a ordem do cosmo. Na alquimia dos movimentos, transmutamos sentimentos, criamos cor e ritmo, um ao lado do outro, unidos pela mão e por algo mais em comum, que nos colocou nessa sem fim..."

Com muito envolvimento emocional, eles continuam explicando que "plantar sementes novas em solo humano exige o mesmo cuidado que temos quando plantamos na terra: conhecimento do movimento dos ventos, da lua e das estrelas".

Com cerca de 150 pessoas inscritas, apesar do preço um pouco salgado (R$ 840,00 no valor à vista), mesmo com o parcelamento para facilitar, o Encontro foi considerado por vários participantes ouvidos pelo Dance como extremamente proveitoso e agradável.

Os professores e entidades convidadas foram: ADE (Dança dos Orixás), Ahmet Lüleci (Turquia), André Trindade (alongamento), Aanhid Sofian (dança do ventre), Coral Trovadores do Vale do Jequitinhonha (danças do Norte de Minas), Capuaçu e Tião Carvalho (Boi do Maranhão), Glaucia Castelo Branco Rodrigues (relaxamento), Lídia Hortélio e Adelsin (cantigas de roda), Michael David e Alexandre David (Romênia e Rússia), Renata Ramos (danças sagradas), Saia Rodada - Gira Sonhos (danças do Maranhão) e Suzanne Rocca Butler (danças diversas).

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