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A IMPORTÂNCIA
DA TRADIÇÃO
A dança é uma arte cujos registros
são guardados na memória humana. Ao contrário da literatura
ou da pintura não há registros concretos da dança
antes da invenção da câmera e do filme, por volta de
1900. Mesmo assim, pouco da dança foi registrada em filmes e em
vídeos. Séculos de tradição, conhecimento e
coreografias anteriores são guardadas exclusivamente na memória
de alguns poucos mestres.
A danca é transmitida de pessoa para
pessoa, em um sempre renovado processo de troca entre professor e aluno.
É assim que a tradição se perpetua e assim também
que surge a modernidade. Quem não tem passado não tem futuro.
O percussionista Naná Vasconcelos resumiu a questão brilhantemente:
“Tradição é a mãe eterna, de tudo que a gente
pensa, e até se convence de estar fazendo de novo em música.
Moderno é só o nome de um dos filhos da tradição”.
O sapateado se presta particularmente bem
a todo tipo de experimentação artística e musical.
Basicamente, é uma técnica de percussão feita com
os pés, mas em termos de estilo e de movimentação,
sempre foi uma arte disposta a incorporar elementos oriundos de outras
linguagens, seja a dança de salão (Fred Astaire), a dança
moderna (Gene Kelly), o ballet clássico (Paul Draper), a acrobacia
(Berry Brothers, Nicholas Brothers) ou o Hip Hop (Savion Glover). O sapateado
não é uma forma de dança folclórica, com repertório
definido e passos registrados e imutáveis. Ninguém pode falar
em “estilo correto”, em relação a outros. Ao contrário,
é uma arte viva, em perpétua mutação, que sempre
tirou sua força das invenções de novos talentos.
Acredito porém, ser responsabilidade
do professor transmitir sua arte de maneira a proporcionar ao aluno um
conhecimento histórico do que está fazendo. O aluno tem que
saber de onde vieram certos passos, quais foram os grandes mestres do passado
e quais foram suas contribuições no desenvolvimento do sapateado.
Savion não veio do nada. Seu estilo e vocabulário está
firmemente enraizado na tradição, em passos que lhe foram
ensinados pela velha guarda. A estética mudou, a raiz não.
Isso não vai impedir o modernismo, ao contrário, só
vai embasar e enriquecer as experiências novas. O que se fazia no
auge da grande época do sapateado (1920-1940) é hoje difícil
de imaginar. Imbuir-se das idéias e inspirar-se nos geniais rodopios
do grande “Bojangles”, de Fred Astaire, dos Nicholas Brothers, de Honi
Coles ou Jimmy Slyde (ainda em atividade hoje) é uma homenagem,
uma honra e só pode reforçar e dar peso aos seus passos.
Steven Harper é
Professor e bailarino
de sapateado
Página pessoal:
http://stevenharper.stop.to/
Programa do 4° festival
PercPan, em Salvador da Bahia, sob o tema de Modernas tradições.