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IMPRESSÕES DE MAIO
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Excelente a série dedicada à
dança cênica apresentada por Sérgio Britto, em seu
programa aos sábados na TVE ‘Diário de Teatro’. O sucesso
do programa gerou um novo modelo que vai ao ar todas as quartas feiras
às 23h: ‘Arte com Sérgio Britto’ onde todas as manifestações
artísticas são contempladas. O apresentador é uma
personalidade cuja importância para a cultura brasileira é
indiscutível; assistir a um painel onde fragmentos preciosos e raros
de ballets de todas as épocas podem ser apreciados dentro do seu
contexto histórico e do seu valor intrínseco constitui-se
numa grande lição. Mais do que muitos dos profissionais da
área Sérgio revela, sem preconceitos, seu conhecimento e
interesse pessoal por essa expressão de arte irmã da música
e do teatro. Não esperávamos outra abordagem por parte desse
grande artista, exatamente porque sendo ele grande e artista conhece a
ânsia de viver o novo mas necessita, como um alimento, do que é
histórico, do que não morreu e nem morrerá; porque
também sabe que criadores imortais podem ser interpretados de acordo
com o momento interior de cada artista, sem outro compromisso que não
seja a integridade com que cada um se lança num novo projeto; porque
é capaz de se arriscar tanto no totalmente inusitado quanto num
‘Rei Lear’ tradicional de um Shakespeare moderno e eterno. Há o
que assistir numa televisão, seja ela aberta ou a cabo; é
questão de escolher.
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Realizou-se entre os dias 30 de abril e 03
de maio a 2ª Mostra de Corumbá Santuário Ecológico
da Dança. A Mostra aconteceu em clima de Pantanal: sem competições
e na mais absoluta paz. A perfeita coordenação administrativa
do Secretário Municipal do Meio Ambiente e Turismo Ângelo
Rabelo e a técnica de Márcia Rolon tornaram o evento profissional
e caloroso ao mesmo tempo. Deve ser motivo de reflexão olhar aquele
palco montado ao ar livre, dotado de iluminação e sons da
melhor qualidade e as arquibancadas superlotadas para assistir dança
dos mais variados estilos por cinco dias. Vários grupos da região
montaram ballets interessantes embora seja necessário cuidar para
que o Brasil não se torne apenas retirante nordestino; nosso país
é enorme e vale a pena ser retratado inteiramente, inclusive nossa
urbanidade tão árida quanto o sertão. O Balé
Guaíra, Beatriz Almeida, maravilhosa interpretando Uwe Schoz, e
Francisco Timbó, recém saído de uma grande performance
em ‘Megera Domada’ foram as grandes atrações do festival.
Mas quando Ana Botafogo é anunciada o povo delira. Dançando
‘Flertando’ ou ‘O Quebra-Nozes’ ela sabe tudo. Tocada pelo entusiasmo do
público interpretou, de surpresa, ‘Zíngara’, bela criação
de Herón Nobre, o maior sucesso da sua noite de apresentação.
A ‘Mostra de Corumbá’ constitui-se num evento inesquecível
que tem tudo para se tornar numa referência obrigatória para
a dança no Brasil. A nota destoante foi o Balé de Diadema,
que extrapolou seu tempo de apresentação cansando os presentes
e prejudicando os demais participantes da noite.
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Digna de registro foi a gala do Dia Internacional
da Dança promovida pela UERJ e pelo Conselho Brasileiro da Dança.
Figuras emblemáticas e especiais como Áurea Hammerli, entre
outros, dançaram com emoção para marcar, enfaticamente,
nesse ano do tão infeliz projeto de Lei do deputado Pedro Pedrossian,
a posição da dança-arte, única que todos admitimos,
de intelectuais a performers, de criadores a curadores. Dino Carrera, diretor
do Teatro Odylo Costa Filho, firmou a sua posição e a da
UERJ contra a postulação da educação física
contando também com o apoio do CBDD de Mariza Estrella. Linda também
a participação de Maria Alice Poppe e sua intensidade dramática.
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Mais uma vez o Rio sai na frente. Com a volta
dos Concertos para a Juventude e a apresentação da Companhia
Jovem do Rio de Janeiro temos duas iniciativas da maior importância
para a política de formação de platéias que
está vigorando na atual direção do Municipal.A trupe
chama atenção pelo profissionalismo, disciplina e empenho
dos jovens bailarinos. Conquanto a parte contemporânea tenha sido
apresentada com maior brilho - bom o trabalho de Nicolas Musin ‘O pleno
do vazio’ e ótimo o de Tíndaro Silvano ‘Suíte Masquerade’-
revela-se, no acadêmico, a qualidade do trabalho de Angélica
Fioranni: a coda e a variação dos rapazes em ‘Com amor’ foram
impecáveis. Aliás, considerando o que tenho tido oportunidade
de assistir em festivais e em ensaios, seu trabalho de remontadora pode
ser muito mais bem aproveitado. Nem todos os profissionais que estão
atuando no país possuem a bagagem de Fioranni; alguns estão
mesmo, confundindo marcas atléticas com técnica de ballet
clássico. Parabéns a Mariza Estrella e Dino Carrera, que
vêm lutando bravamente pela companhia ao lado de Alda Marques, Maria
Luíza Noronha e Sérgio Lobato. PS1: Dispensável
a participação de bailarinos convidados. Confiem na garotada,
ela dá conta do recado.
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Com um espetáculo surpreendente, Roberto
Lima, Armando Nesi, Arabel Issa e Eduardo Gama apresentaram os alunos de
teatro da Escola Martins Pena que freqüentam o Núcleo de Pesquisa
Corporal em Dança para Atores no espetáculo 5 x Dança.
Se aqueles estudantes já se deram conta de que agora estão,
realmente, dançando não sabemos; mas o que pudemos assistir
é dança, não é mera movimentação
cênica. Por que? Porque estão estudando dança com quem
é formado nela, por quem preza seu ofício e respeita o do
outro. Destaque para o brilho pessoal de Júlio Wenceslau no delicioso
maxixe ‘O Malandro’ coreografado por Armando Nesi, a criatividade e senso
de humor de Arabel Issa em ‘Caminhando’ e o duo de ‘Mulheres’ interpretado
por Júlio Wenceslau e Felipe Tocci, de Roberto Lima. Prossigam.
Nesse trabalho cúmplice, mestres e alunos estão sinalizando
para um belo e seguro caminho àqueles que souberem observar e perceber.
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Maravilhoso, é o mínimo que
se pode falar dos textos dos programas destinados às crianças
nos dias de espetáculo para as escolas do projeto Educação
com Arte. Sonja Figueiredo e sua equipe realizam um trabalho de primeiro
mundo; todos ficam embasbacados diante do trabalho de pesquisa e do direcionamento
didático-pedagógico contido naqueles textos. Sonja, o Rio
fica orgulhoso de sua idéia e torce para que ela se torne nacionalmente
adotada. Aliás, os próprios bailarinos não perderiam
nada se colecionassem esses pequenos livros repletos de informações.
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Muito bonita e pertinente a iniciativa de
Dalal Achcar em parceria com a Associação de Amigos da Funarte,
Fundação Cesgranrio e Associação de Amigos
do Theatro de reviver a memória dos artistas do Theatro Municipal
do Rio de Janeiro. Dalal tem mostrado que é capaz de rever posições
e que é sensível ao peso da história da qual ela faz
parte. Nessa primeira série, que esperamos seja a primeira de infinitas
outras, foram contemplados Eugênia Feodorova, Dennis Gray, Tatiana
Leskova, Maria Olenewa e Nina Verchinina, para só mencionar o pessoal
de dança. Belíssimas as esculturas de Fábio Braga
da Coleção Marcelo Del Cima, valorizando ainda mais a beleza
do foyer do balcão nobre do Theatro, onde se deu o lançamento.
As biografias dos bailarinos, todas com ilustrações raras,
têm a autoria, entre outros, de Roberto Pereira e Maribel Portinari.
Adriana Pavlova, escritora de um dos melhores cadernos, infelizmente foi
também a responsável pela reportagem sensacionalista e de
mau gosto publicada no segundo caderno de O Globo do dia 16 de maio por
ocasião da estréia de Megera Domada. Disputas e fogueira
de vaidades só existem no ballet e do Theatro Municipal? Artistas
do porte de Ana Botafogo, Áurea Hammerli, Cecília Kerche,
sem falar em Nora Esteves - bailarina cuja carreira irrepreensível
é das mais brilhantes que o Corpo de Baile conhece - e que sequer
foi citada na reportagem, que deram e continuam dando uma contribuição
inestimável à cultura do Brasil, não podem ser comparadas
a mocinhas da moda da novela das oito. Nada temos a ver com fofocas de
veículos jornalísticos de intrigas e frivolidades; de fato
temos muita coisa mais interessante para falar e divulgar sobre nossos
bailarinos. Quanto ao momento de deixar o palco só diz respeito
a cada artista; ninguém, sobretudo pessoas alheias ao métier,
têm o direito de insinuar coisa alguma, até porque está
se falando de artistas que pertencem à única referência
da dança clássica no país. Nenhum de nós, que
construiu uma sólida vida profissional é insubstituível
nem tampouco substituível. Se a intenção foi de defender
alguém ou discordar dos critérios adotados pela direção
do Theatro melhor seria ter proposto um diálogo elegante e construtivo
com a categoria e com os responsáveis pelas escalações
dos elencos.
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Tão impressionante quanto o sucesso
de ‘Choreartium’ de Leonid Massine, remontado por Tatiana Leskova para
o Het National Ballet, é o descaso da mídia brasileira em
relação ao fato. Leskova é a história viva
do ballet do Brasil e Massine, um dos maiores nomes da dança do
século XX, foi dos criadores de maior significado para o Theatro
Municipal do Rio de Janeiro. Entre 1955 e 1956 sete de suas obras foram
montadas para o nosso principal teatro oficial e algumas delas foram encenadas
por mais de uma década sem interrupções. Precisamos
tomar conhecimento da história da nossa profissão, da nossa
cidade e do nosso Theatro, parar de só olhar ballet quando se vai
dançar, de ignorar as obras completas, de só se interessar
por pas-de-deux ou variação disso ou daquilo. Que tal gastar
mais com livros, vídeos, jornais e revistas especializadas? Vale
a pena, até pelo lado prático; pode ser até a possibilidade
do nosso futuro na profissão quando ela já não nos
solicita no palco.
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Excelente o programa ‘Deles e Delas’ da CNT
apresentado por Júlio Lopes e Gilse Campos, reprisado a pedidos,
entrevistando Dalal Achcar. As perguntas permitiram à entrevistada
fazer declarações há muito tempo esperadas: a falta
total de apoio das instâncias Federais às Artes eruditas,
notadamente os corpos estáveis do Theatro Municipal do Rio, e a
falta de interesse dos nossos canais de televisão na cobertura e
transmissão dos seus espetáculos.
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Márcia Milhazes voltou, e voltou participando,
como coreógrafa, do 2º Concerto Vesperal da OSB. No programa
a sinfonia nº 3 em Ré Menor de Anton Bruckner e ‘História
do soldado’. Obra-prima de Stravinski, a ’História do soldado’ contou
com uma participação de Milhazes, numa criação
coerente com sua linguagem preciosa. A bailarina Ana Amélia ainda
precisa trabalhar bastante para assimilar a dança delicada e rendilhada
da coreógrafa.
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Uma coisa é mister que se reconheça:
a postulação da Educação Física é
tão esdrúxula que conseguiu o que parecia impossível,
unir a Dança em torno de uma idéia comum. Salve Dionísio!
É do caos que nasce a vida! Já imaginaram dançarinos
travestidos de atletas, de calças de helanca com friso dos lados?
Seria cômico se não fosse trágico.
Eliana Caminada é
professora de História da Dança
na UniverCidade e Universidade
Castelo Branco
e foi primeira bailarina
do Theatro Municipal – RJ
Página pessoal:
http://www.geocities.com/caminadabr/index.html