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Jornal DAA Considerando o Salao - 62

CONSIDERANDO O SALÃO


LAMBADA NÃO É ZOUK

 

 

A Música do Caribe

Em vez de Caribe, o mais correto seria a região chamar-se "Os Caribes", considerando que as ilhas foram dominadas por diversos povos europeus, dando características muito diferentes a cada uma delas. Os Caribes seriam quatro: o espanhol, o francês, o inglês e o holandês.

Todos têm em suas culturas, em maior ou menor grau, influência dos nativos, dos invasores e dos africanos.

Na música, isso representou uma enorme diversidade, mas com um detalhe: quase todos os países utilizam principalmente os instrumentos de cordas que vieram da Europa e a percussão africana (basicamente do povo Yorubá).

Muitos acreditam que a lambada - música e dança - sejam produtos culturais do Caribe. Também há aqueles que acreditam que lambada e zouk sejam nomes diferentes para o mesmo ritmo e dança, mas nada disso é verdadeiro. Para entender como surgiu a lambada e desfazer essa confusão é preciso saber um pouco mais, separando danças e músicas nesse caldeirão de ritmos.

 

A Música Zouk

A música caribenha, que é também ingrediente de diversos ritmos brasileiros, sempre teve grande influência no norte do Brasil, em especial no Maranhão.

O zouk é uma dessas músicas. Forte onde ocorreu colonização francesa como a Martinica e Guadalupe, ele é cantado, normalmente, em creòle, uma mistura do francês com línguas africanas. Estudiosos acreditam que a sua base rítmica pode ser oriunda da cultura árabe. Esta mesma base é encontrada em vários países como Espanha e Portugal, no mundo árabe, no continente africano e em praticamente toda a América.

Uma das versões sobre o surgimento da música zouk afirma que ela foi criada para divulgar a Martinica e ter, a exemplo de Cuba, influência cultural na América Latina. O resultado foi apenas parcial: conseguiram que o ritmo se espalhasse pelo mundo, mas como isso ocorreu a partir da França, em diversos lugares, inclusive no Brasil, muitos passaram a acreditar que a música e a dança seriam francesas.

Tanto é que por muito tempo, quando era moda dançar lambada, chamávamos os zouks de lambada francesa.

 

A Dança Zouk

O zouk - que significa festa - é uma dança praticada no Caribe, principalmente nas ilhas de Guadalupe, Martinica e San Francisco.

A exemplo do merengue, é dançado trocando o peso basicamente nas cabeças dos tempos musicais (o que muitos professores de dança chamam simplesmente de tempo) e sua coreografia é simples e pouco elaborada.

 

 

A Música Lambada

Surgida no Pará, a música lambada tem base no carimbó e na guitarrada, influenciada por vários ritmos como a cúmbia, o merengue e o zouk.

Diversos relatos de paraenses contam que uma emissora local chamava de "lambadas" as músicas mais vibrantes. O uso transformou o adjetivo em nome próprio, batizando o ritmo cuja paternidade deve ser creditada ao músico Pinduca.

 

O novo nome e a mistura do carimbó com a música metálica e eletrônica do Caribe caiu no gosto popular, conquistou o público e se estendeu, nessa primeira fase, até o Nordeste.

O grande sucesso, no entanto, só aconteceu após a entrada de empresários franceses no negócio. Com uma gigantesca estrutura de marketing e bons músicos, o grupo Kaoma lançou com êxito a lambada na Europa e outros continentes. Adaptada ao ritmo, a música boliviana "Chorando se foi" tornou-se o carro chefe da novidade pelo mundo.

É uma história recorrente, onde apenas mudam os personagens: a valorização do produto nacional se dá tão somente após a vitória no exterior.

Seguiu-se um período intenso de composições e gravações de lambadas tanto no mercado interno quanto externo. Os franceses, por exemplo, compraram de uma só vez os direitos autorais de centenas de músicas. Dezenas de grupos e diversos cantores pegaram carona no sucesso do ritmo, incrementando suas carreiras, como foi o caso de Sidney Magal, Sandy e Jr, Fafá de Belém e o grupo Balão Mágico.

Depois dessa fase de superexposição, como acontece com quase todas as boas novas de ontem, deu-se um natural desgaste com a conseqüente queda nas vendas até o cessar da produção.

 

A Dança Carimbó

Antes de falar sobre a dança lambada devemos lembrar um pouco de uma de suas raízes: o carimbó.

Dança indígena, pertencente ao folclore amazônico vem sendo dançado por lá há séculos. Ascendente direto da lambada é, na forma tradicional, acompanhado por tambores de tronco de árvores afinados a fogo. Atualmente o carimbó tem como característica ser mais solto e sensual, com muitos giros e movimentos onde a mulher tenta cobrir o homem com a saia.

 

A Dança Lambada

A dança lambada teve sua origem a partir de uma mudança do carimbó que passou a ser dançado por duplas abraçadas ao invés de duplas soltas. Assim como o forró, a lambada tem na polca sua referência principal para o passo básico, somando-se o balão apagado, o pião e outras figuras do maxixe.

Usa-se, para as trocas de peso, normalmente, as cabeças dos tempos e o meio do tempo par; se começarmos a dançar no "um", (pisa-se no "um", no 'dois" e no "e" - o que chamamos comumente de contratempo, apesar de não ser usado em termos musicais).

A lambada chega a Porto Seguro, e ali se desenvolve. Boas referências foram a lambada Boca da Barra e o Jatobar em Arraial D'Ajuda, onde desde o início também zouks (lambadas francesas) serviram para embalar os lambadeiros.

Tudo isso acontece na época do apogeu do carnaval baiano, que ditava uma moda atrás da outra, e numa delas, apresentou a lambada ao Brasil.

Essa segunda fase da dança durou apenas uma temporada e foi um pouco mais abrangente que a primeira que só havia chegado até o nordeste.

Até esse ponto a lambada era uma modalidade que tinha como principal característica os casais abraçados. Era uma exigência tão forte que, quando da realização de alguns concursos, aqueles que se separassem eram desclassificados.

No exterior e aqui, a lambada torna-se um grande sucesso e em pouco tempo marca presença em filmes e praticamente todos os programas de auditório aparecendo até em novelas. É a hora dos grandes concursos, shows etc. A necessidade do espetáculo faz com que os dançarinos criem coreografias cada vez mais ousadas, com giros e acrobacias.

Depois de algum tempo, a música lambada entra em crise e pára de ser gravada. Os Djs das boates aproveitam então para simular o enterro do estilo musical. A dança perde destaque, mas sobrevive, pois já haviam sido feitas nas lambaterias muitas experiências com variados estilos de música que tivessem a batida (base de marcação) que permitisse dançar lambada, só para citar um exemplo, a banda de rumba flamenca Gipsy Kings teve vendagem significativa por aqui por conta da dança, então as músicas francesas, espanholas, árabes, americanas, africanas, caribenhas etc. viraram a "salvação" e solução para a continuidade do estilo de dança. De todas, o zouk foi o ritmo que melhor se encaixou na nossa dança tornando-se a principal música para dançar lambada.

Esta passa a ser dançada com um andamento mais lento, com mais tempo e pausas que praticamente não existiam na música lambada, permitindo explorar ao máximo a sensualidade, plasticidade e beleza da nossa criação. Os movimentos ficaram mais suaves e continuam fluindo, modificando-se à medida que ela incorpora e troca com outras modalidades. Contribuem ainda as diversas pesquisas, até fora da dança de salão, como por exemplo, as de contato e improvisação.

Hoje a relação com o parceiro volta a ganhar valor, as acrobacias ficam praticamente exclusivas para os palcos e os locais para dançar reabrem em diversos estados.

Mesmo não tendo, por parte de alguns, o devido reconhecimento, a lambada mostrou-se um grande incremento profissional.

Encontramos lambaterias e professores de lambada em diversos pontos do planeta e ainda que a chamem de zouk, muitos viveram e vivem dela até hoje.

De toda essa história ficaram ótimos frutos, por exemplo: uma boa parte dos talentos da dança de salão de hoje surgiu a partir da lambada; a apresentação aos jovens da dança a dois; a visibilidade internacional conquistada - a lambada é a nossa dança de par mais conhecida no exterior (mais até que o samba) e principalmente o resgate do direito, perdido a décadas, de dançar abraçado.

Aqui termina esse artigo, mas essa história está muito longe de acabar.

 

Luís Florião é professor

de dança de salão


  

Luís Florião
é professor de dança de salão

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